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Publicações da série Roteiros Ecoturísticos da Bahia
Secretaria da Cultura e Turismo - 2000 - 2003


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COSTA DO DENDÊ  
A diversidade de cenários naturais praticamente intocados e um expressivo patrimônio da arquitetura urbana e rural dos tempos do Brasil Colônia, fazem da Costa do Dendê um dos mais relevantes itinerários ecoturísticos da Bahia. Ainda pouco explorada, a região abriga na exuberância de suas matas, rios navegáveis de águas limpas, corredeiras, cachoeiras e trilhas. Além disso, são abundantes manguezais, restingas, coqueirais e praias ainda primitivas, alem de uma grande diversidade agrícola.

As águas abrigadas dos canais de Taperoá e de Serinhaém e o grande golfo de Camamu – terceira maior baía do Brasil – são ideais para a prática da navegação esportiva e de contemplação.

Em suas cidades, povoados e vilarejos o visitante encontra com testemunhos e vestígios da arquitetura colonial, não raro datados dos anos iniciais da colonização. São casarões assobradados, igrejas e conventos imponentes, pequenas capelas, casas de fazendas que outrora pertenceram a senhores ricos vindos do Reino, além de fortalezas que guardavam a Bahia dos invasores holandeses e franceses. Há mais: o bucolismo de povoados remanescentes de antigos quilombos que recordam os tempos da escravidão.

Lugar freqüentado no passado por corsários e piratas, Morro de São Paulo é atualmente um dos recantos mais visitados da Costa do Dendê. Nas suas praias e enseadas aportam veleiros e escunas vindos de várias partes do Brasil e do mundo. Em seus restaurantes e pousadas degusta-se um cardápio especial de peixes e mariscos, pratos preparados à base do azeite dos frutos vermelhos de uma palmeira introduzida pelos escravos no período colonial e que empresta seu nome à região. Aliás, uma especialidade de todos municípios da Costa do Dendê.

Dotada de uma infra-estrutura de apoio que oferece hotéis, pousadas, ancoradouros, rodovias asfaltadas e um moderno aeroporto equipado para receber aviões de grande porte, a Costa do Dendê é uma das mais fortes opções para visitação turística na Bahia.

Este roteiro integra a série Roteiros Ecoturísticos da Bahia da Superintendência de Desenvolvimento do Turismo da Secretaria de Cultura e Turismo e foi estruturado tendo como ponto de partida Valença, a principal cidade da região do Baixo Sul da Bahia e portão de entrada da Costa do Dendê, que compreende ainda os municípios de Cairu, Taperoá, Nilo Peçanha, Ituberá, Igrapiúna, Camamu e Maraú. Os atrativos ecoturísticos foram localizados a partir de levantamento de campo com a utilização de GPS – Global Position System.

Ao divulgar os atrativos da Costa do Dendê através de roteiros detalhados, complementados por fotos e mapas animados, a SUDETUR objetiva não somente estimular a visitação a essa região de excepcional beleza, mas também atrair possíveis investidores para esse rico e diversificado produto.

Érico Pina Mendonça Júnior
Superintendente

 
COMO CHEGAR
• Pelo sistema ferry-boat, que liga Salvador a Bom Despacho, na Ilha de Itaparica. Uma vez na ilha, seguir a estrada BA-001, passando por Nazaré, até a cidade de Valença, por 105 Km.

• Saindo de Salvador pela BR-324, percorrer 81 Km até o entroncamento com a BR-101 antes de Feira de Santana, seguindo 95 Km até Santo Antonio de Jesus, onde há duas opções:

a) entrar na BA-245 percorrendo 30 Km até Nazaré; daí seguir 45 Km pela BA-001 até Valença;
b) continuar por 47 Km pela BR-101 até o entroncamento da BA-542, percorrendo 30 Km até Valença.

• Vindo do Sul pela BR-101, após Itabuna e Ubaitaba, na altura de Travessão, seguir pela BA-650 por 41 Km até Camamu. Deste ponto, seguir até Valença, passando por Igrapiúna, Ituberá, Nilo Peçanha e Taperoá, são mais 71 Km.

Valença dispõe de Aeroporto pavimentado com capacidade de receber aeronaves do porte de Boeing-737. Além deste, a região conta com pistas de pouso para aviões de pequeno porte em Morro de São Paulo (Cairú), Ituberá e Maraú.

Há, ainda, a opção de chegar a Costa do Dendê por embarcações que saem de Salvador, do Centro Náutico da Bahia, principalmente com destino à Morro de São Paulo.

 
ASPECTOS HISTÓRICOS E CULTURAIS
A Costa do Dendê está entre as mais antigas áreas de ocupação e povoamento do Brasil. As primeiras notícias sobre essas terras férteis e de águas abundantes remontam à terceira década do século XVI, quando Martim Afonso de Souza, militar e administrador colonial português, a mando do rei D. João III, O Colonizador, comandou uma expedição de cinco navios (1530-1533) com a tríplice missão de explorar a costa desde o Maranhão até o Rio da Prata, impedir o comércio de pau-brasil pelos franceses e fundar os primeiros núcleos lusitanos no Brasil quinhentista.

Até onde se sabe, Martim Afonso de Sousa foi o primeiro europeu a pisar nas praias da Costa do Dendê. Com razoável certeza, pode-se afirmar que esse colonizador, nascido no ano da descoberta do Brasil, ancorou sua frota em um porto natural, localizado na contracosta do atual Morro de São Paulo, uma falésia de arenito que domina a paisagem do lugar X que os índios tupiniquins denominaram de ty-nhã-ré, “o que se adianta na água”.

Na verdade, trata-se de uma ilha litorânea (Tinharé) separada do continente por um braço de mar (Canal de Taperoá) que, aos olhos dos índios, parecia um pedaço de terra “que se adianta na água”. Apesar dessa incursão, o marco inicial do povoamento da região deve ser situado na divisão da costa do Brasil em Capitanias Hereditárias, doadas pelo rei a pessoas de sua confiança e que se dispusessem a investir na Terra de Santa Cruz.

O território atualmente ocupado pelo Estado da Bahia foi dividido, em 1534, em três Capitanias:
A que se concedeu a Francisco Pereira Coutinho – Capitania da Bahia – e que se estendia por 50 léguas de costa, da foz do rio São Francisco à ponta da Baía de Todos os Santos, incluindo o Recôncavo.

A Capitania de Ilhéus, doada a Jorge de Figueiredo Correa, que se iniciava na foz do rio Jaguaribe, também na Baía de Todos os Santos, logo abaixo da ponta sul da Ilha de Itaparica (Ponta do Garcez), e ia até 50 léguas em direção ao sul, até a margem norte do rio Jequitinhonha.

E a Capitania de Porto Seguro, que começava no limite da Capitania de Ilhéus e se estendia até o rio Mucuri, doada a Pero de Campo Tourinho. Todas as capitanias se estendiam por 10 léguas para o mar, abrangendo as ilhas que fossem encontradas, e para o sertão e terra firme, até a linha-limite demarcada a leste pelo Tratado de Tordesilhas.

Uma dessas donatarias, a Capitania de Ilhéus, que abrange a Costa do Dendê, foi doada em 26 de junho de 1534 a Jorge de Figueiredo Correa, fidalgo do reino e escrivão da Fazenda Real que, segundo Eduardo Bueno em Capitães do Brasil: A saga dos primeiros colonizadores, “era, entre os donatários, o que dispunha de maiores condições, elementos e finanças para colonizar sua capitania”.

O capitão-mor donatário, todavia, não viajou para o Brasil (viria a falecer em 1571) e mandou como seu representante Francisco Romeiro, natural de Castela, na Espanha, “homem experimentado e prudente e bom para as coisas da guerra”. Em 1535, Francisco Romeiro partiu de Lisboa e veio ancorar na Ilha de Tinharé, onde, depois de enfrentar índios bravios, ergueu uma povoação no alto do Morro de São Paulo.

Nessa povoação inicial, trinta cristãos se dedicaram à cultura do algodão e provavelmente fizeram alguma extração de pau-brasil. Assim, na extremidade norte da Ilha de Tinharé ? em Morro de São Paulo ?, ergueu-se uma das mais antigas povoações do Brasil e a primeira da Capitania de Ilhéus. A modesta povoação, porém, não prosperou. Francisco Romeiro acabou rumando para o sul e, na Baía de Ilhéus, fundou a Vila de São Jorge dos Ilhéus, a sede da Capitania

O terceiro Governador-Geral do Brasil, Mem de Sá, empreendeu diversas campanhas contra os índios tupiniquins e os canibais aimorés, possibilitando que colonos ocupassem as terras da região. Começam a se desenvolver, então, as vilas de Cairu e Boipeba, respectivamente surgidas em 1535 e 1565, ambas situadas em ilhas, por oferecerem maior proteção contra os índios.

Cairu foi um dos primeiros núcleos populacionais do litoral brasileiro. Foi elevado à categoria de vila em 1610 e, ao lado de Boipeba, exerceu até o início do século XVIII papel relevante na região.

Em Cairu, foram construídos um engenho e uma pequena ermida (provavelmente de taipa). Em 1654, a instalação do convento franciscano de Santo Antônio ? Convento de Cairu ? foi um passo decisivo para o desenvolvimento da vila. Erguido no local onde existia a antiga ermida, no ponto mais alto da antiga vila, ainda hoje é a referência visual mais marcante na paisagem do lugar. Obra-prima da arquitetura franciscana e uma das principais obras do barroco religioso brasileiro, esse convento guarda tradições das construções monásticas medievais.

No início do século XVII, Cairu já havia se tornado uma das mais importantes vilas da Colônia, sendo desmembrada de Ilhéus com o nome de Vila de Nossa Senhora do Rosário de Cairu. Durante o século XVIII, Cairu era a melhor e a mais segura moradia da região, e ali passariam a residir ouvidores e corregedores da comarca de Ilhéus. Ainda no século XVIII, fortemente atingida pelos ataques dos aimorés, entrou em decadência. A exploração crescente e extensiva de madeira na ilha, levou a Coroa, em 1680, a regularizar tais atividades. Aos poucos, Cairu foi se tornando um núcleo adormecido, e Camamu gradativamente foi assumindo a liderança na região

Em 19 de março de 1544, com o intuito de povoar com engenhos de açúcar as terras mais ao norte da Capitania de Ilhéus, o donatário Jorge de Figueiredo Correa concedeu uma sesmaria de doze léguas (72 km de costa), entre os Rios de Contas e Camamu, a Mem de Sá e Francisco de Betancor.

Essa sesmaria, que abrangia grande parte da Ilha de Boipeba, ficou conhecida como “sesmaria das doze léguas de Camamu” e, algum tempo depois, foi transferida, por doação, aos jesuítas. Por volta de 1560, esses jesuítas fizeram surgir, em uma aldeia de índios tupiniquins situada às margens do rio Camamu, um povoado que recebeu o mesmo nome do rio.

O vocábulo Camamu se origina do tupi Cama-m-un, que significa “o peito negro”, nome de ave aquática então abundante na região. Outra versão é de que a denominação Camamu quer dizer “água do peito da mulher”. Isso porque os índios veriam semelhança entre o que ocorre com o leite do seio materno e o que ocorria com as águas da Baía de Camamu, para onde afluem os rios Maraú, Serinhaém, Acaraí e Camamu, além de outros pequenos riachos.

Um ano depois, em 1561, por iniciativa do padre provincial Luís da Grã, o povoado foi transferido mais para o sul, fixando-se em um local denominado de Passagem do Macamamu. Em 1637, o povoado foi invadido pelos holandeses e, para prevenir novos ataques, os senhores de engenho mandaram entulhar os canais de acesso ao porto com pedras enormes que ainda hoje dificultam a navegação de embarcações de maior porte nessa região.

É interessante observar que a vila que se desenvolveu à margem esquerda do estuário do Rio Acaraí, “o rio dos acarás”, seguiu a velha tradição urbanística lusitana da cidade de dois andares, com seus becos estreitos e ladeiras íngremes. Dessa maneira, Camamu é, propositalmente, uma cidade em dois níveis: era a maneira de se defender contra agressões estrangeiras vindas do mar e contra ataques dos índios vindos do interior.

Devido à ameaça de novos ataques dos holandeses que, em 1624, comandados por Van Dorth, haviam invadido e ocupado X durante um ano X a Cidade do Salvador, capital da Colônia, foi construída uma fortaleza na Costa do Dendê, mais precisamente em Morro de São Paulo, para guarnecer o canal de Tinharé e a entrada da Baía de Todos os Santos.

Com o passar dos anos, Morro de São Paulo assumiu o papel de povoação estratégica, com características essencialmente militares. A guarnição dos cinco fortes e baterias contava com 183 homens, que zelavam por 51 peças de artilharia e uma muralha de quase mil metros de extensão.
Dois séculos depois, a fortaleza viria a ser a base das operações da esquadra brasileira chefiada pelo almirante inglês Lord Cochrane, a serviço de D. Pedro I, nas lutas pela independência da Bahia contra o domínio português. O Portal (Portaló) que dá acesso à escadaria que leva à rampa da fortaleza e às ruínas do forte existe ainda hoje e é uma das marcas registradas de Morro de São Paulo.

No passado colonial, Morro de São Paulo era uma espécie de porto livre. Suas águas abrigavam grande parte dos navios procedentes do Reino ou da África, bem como os de cabotagem que, antes de entrarem na Baía de Todos os Santos, ali realizavam negócios clandestinos, contrabandeando artigos que faziam parte das cargas que transportavam.

Em meados do século passado, no alto do promontório de Morro de São Paulo, foi construído um farol, com a função de orientar as embarcações para entrar no canal de Tinharé. Ele existe até hoje e continua em pleno funcionamento.

Assim como as terras de outros municípios da Costa do Dendê, também o município de Maraú tem sua origem em uma aldeia de índios tupiniquins denominada Mayrahú, que significa “luz do sol ao amanhecer”. Em O Tupi na Geografia Nacional, Theodoro Sampaio faz referência a Maraú, do tupi ma-rã-ú, “a coisa de sorver ou que se toma de sorvo” (e que é o fruto da planta passiflora, ótimo calmante).

Seja como for, acredita-se que a aldeia dos “Mayras” foi descoberta pelos frades capuchinhos italianos, que ali ergueram a Igreja de São Sebastião (de Mayrahú), em 1705. No imaginário popular, a criação da Península de Maraú é a própria lenda ou história de amor entre o índio guerreiro Maraú e a índia Saquaíra.

Acredita-se que, além dos tupiniquins, ocupavam as terras de Maraú os aguerridos aimorés ? ou botocudos ? que, desde os primórdios da colonização, aterrorizavam os colonizadores e obstinadamente se recusavam ao contato. Por mais de um século, a região enfrentou o ataque dos indígenas.

A respeito desses índios, observou Darci Ribeiro: “... os padres capuchinhos italianos iniciaram junto às tropas militares a missão de catequese onde já se subjugavam os botocudos. Mais tarde, enfraquecidos pelas doenças e pelas missões, os índios caíram sob o fogo dos fazendeiros que lhes tomaram as terras...”. Os índios que sobreviveram foram expulsos da região.

Existem também relatos sobre o efeito devastador das moléstias trazidas ao Brasil pelo colonizador europeu: sabendo dos efeitos devastadores das doenças dos brancos sobre os índios, os portugueses jogavam na mata roupas contaminadas de doentes de varíola, conseguindo assim provocar epidemias entre os índios.

Os índios, com sua guerra de guerrilhas, além de terem dificultado a ocupação da região, inibiram a expansão em grande escala do cultivo da cana-de-açúcar e, como conseqüência, a região não desenvolveu, como aconteceu com o recôncavo, uma economia dinâmica voltada para o mercado externo. Toda essa área costeira entre Valença e Maraú, viria a se inserir no complexo açucareiro do Recôncavo como área periférica, fornecedora de alimentos, sobretudo da farinha de mandioca. Por isso, durante muito tempo a região ficou conhecido como Recôncavo Sul.

Entre os anos de 1557 e 1571, os primeiros portugueses chegaram às terras atualmente pertencentes ao município de Valença que, na época, estava vinculado à vila de Nossa Senhora do Rosário de Cairu. Dentre eles, merece destaque Sebastião de Pontes, homem rico, dono de engenhos de açúcar no Recôncavo Baiano e responsável pelos empreendimentos pioneiros que deram origem ao povoado de Amparo (hoje Valença), como a implantação de um curral de gado defronte à Ilha de Tinharé, no local que ainda hoje conserva o mesmo nome ? Ponta do Curral. Acredita-se que foi por esse local que entraram as primeiras cabeças de gado que chegaram à Bahia.

Foi também Sebastião de Pontes quem construiu o Engenho do Una na primeira cachoeira do Rio Una, a duas léguas de sua foz, e uma igreja consagrada a São Gens, que não existe mais. A sua administração foi bruscamente interrompida por volta de 1574, depois de ter açoitado e marcado a ferro quente num dos ombros um mascate que viera ao seu engenho e lhe dirigira ofensas.

De volta a Portugal, o mascate arranjou um meio de se queixar diretamente ao rei. Temendo enfrentar Sebastião de Pontes em seus domínios, o governo português enviou um navio de guerra a Morro de São Paulo, a pretexto de consertar avarias. O capitão do navio fez uma visita de cortesia ao senhor de engenho e, ardilosamente, o convidou para uma visita ao navio, onde Pontes foi posto a ferros e levado para Lisboa. Acabou seus dias na cadeia do Limoeiro.

Com a prisão e morte de Sebastião de Pontes, a região entrou em decadência e foi invadida pelos índios aimorés que, por longos anos, iriam impedir a ocupação e povoamento do território. Como esses índios desconheciam a arte de navegar, foi possível aos colonos migrarem para as ilhas de Tinharé, Cairu e Boipeba onde, em fins do século XVII, já existiam algumas importantes povoações. Durante os séculos XVII e XVIII, essas três ilhas ? as maiores do Arquipélago de Tinharé ? concentravam a maior produção de farinha de mandioca que abastecia a cidade de Salvador.

Mais tarde, apesar das perseguições dos aimorés, os moradores das ilhas voltaram a se estabelecer em terra firme. Para protegê-los, em 1669 o Governador da Bahia mandou construir uma casa-forte em Mapendipe, onde, inclusive, foi erguida uma capela singela em louvor a São João Batista.

Essa fortificação, porém, não foi suficiente para impedir que, num domingo, os aimorés atacassem a pequena fortaleza, crivassem seu comandante de flechas e saqueassem a capelinha de São João (ruínas dessa capela ainda podem ser vistas no local). Por essa época, mais de 400 colonos haviam sido flechados e mortos pelos aimorés.

Em 1671, o Governador da Bahia Afonso Furtado de Mendonça mandou para a região uma expedição de sertanistas comandados pelo paulista João Amaro Maciel Parente, que subjugou os aimorés (conta-se que voltou com 800 cativos, que foram enviados para os engenhos do Recôncavo para serem negociados como escravos) e a povoação retomou o seu desenvolvimento.

Em 1799, foi criada a Vila de Nova Valença do Santíssimo Coração de Jesus, com território desmembrado de Cairu. Setenta anos depois, a vila é elevada à condição de cidade – Industrial Cidade de Valença –, nome relativo à instalação no município da fábrica de tecidos Nossa Senhora do Amparo (depois Companhia Valença Industrial)X uma das primeiras indústrias de fiação e tecelagem montadas no país e, seguramente, a primeira movida à energia gerada por turbinas hidráulicas.

Em janeiro de 1860, o imperador D. Pedro II visitou essa fábrica e lhe concedeu o honroso titulo de “Fábrica Imperial”. Na época, funcionava outra fábrica têxtil, denominada Todos os Santos, que havia sido instalada desde 1844, quatro anos antes do surgimento da fábrica Nossa Senhora do Amparo. É interessante mencionar que esses empreendimentos foram fundados com base na filosofia do trabalho livre e assalariado, em uma época em que vigorava o regime escravagista.

O povoamento das terras da atual município de Ituberá não difere muito dos territórios vizinhos. Ituberá nasceu de uma aldeia de índios tupiniquins, também habitada por mamelucos e colonos portugueses. A construção da capela de Santo André pelos jesuítas, em seu permanente trabalho de catequese, foi seguida pelo surgimento de palhoças ao seu redor, dando origem à pequena povoação de Nova Santarém, seguramente uma homenagem à cidade lusitana às margens do Rio Tejo. Na segunda metade do século XVIII, já com o nome simplificado para Santarém, o povoado contava com quase cem palhoças, habitadas por cerca de trezentos índios e alguns portugueses e mamelucos.

A ocupação ocorreu, inicialmente, nos lugares mais elevados do sítio, aproveitando-se da boa visibilidade e condições de segurança, seguindo a característica urbanística portuguesa quinhentista.

Mais tarde, com o crescimento da população, e como a relação com os índios era pacífica, a ocupação se espalhou na direção dos pontos mais baixos, próximo ao rio Serinhaém (do tupi ciri-nhãe, “o viveiro dos siris”), onde seria construído o porto de Santarém.

Seus primeiros habitantes se dedicaram ao plantio da mandioca. Mais tarde os portugueses introduziram o cultivo do café e do cacau, que não progrediu, porque os índios acharam esses produtos imprestáveis.

Como a região não contava com uma atividade agrícola importante, foi o porto de Santarém que acabou se tornando o principal fator de desenvolvimento da povoação, que foi elevada à categoria de vila, em 1783, com o nome simplificado para Santarém. O porto recebia as mercadorias provenientes de Salvador e destinadas aos colonizadores do sul da Bahia. Em pouco tempo, a vila se tornou um importante entreposto comercial, experimentando longo período de prosperidade.

A bela e primitiva denominação tupi Ituberá (de itu-berá, “cachoeira brilhante”), provavelmente uma referência à queda d’água XCastro AlvesX no Rio dos Cágados, que corta a cidade, só foi reincorporada em 1944 e permanece até hoje.

A primitiva povoação de Taperoá, topônimo que provém da língua dos tupis – taper–uá, “o habitante das taperas” ou “o habitante das ruínas” tem sua origem em um aldeamento de índios ? São Miguel de Taperoguá ?, fundado pelos jesuítas em seu trabalho de catequese, em novembro de 1561.

Um mês após a fundação, foi erguida uma capela, tendo São Miguel como padroeiro, que acabou demolida em 1621. No mesmo local, no alto de uma colina, foi erguida a igreja de São Brás, padroeiro do município. A mudança do padroeiro se deveu ao fato do construtor da nova igreja, Capitão Lucas Fonseca Saraiva, ter recebido uma graça, quando invocara o nome de São Brás, e se curado de uma moléstia.

Atraídas pela fertilidade do solo, pela fartura do pescado, exuberante beleza da paisagem, densas matas e abundância das águas, muitas famílias foram se instalando na região. Mas não se tem notícia de que algum comerciante tenha feito grande fortuna.

A vila prosperou dentro de padrões simples, sobretudo devido a colonos portugueses e italianos que começaram a construir residências e explorar os ramos das atividades agrícola, comercial e madeireira. É interessante citar que, por determinação de D. Pedro I, no processo de colonização das terras da região, em 1828 foi fundada a colônia de Santa Januária, às margens do rio do Engenho.

Nessa colônia se instalaram 101 famílias de mercenários irlandeses, ex–soldados do Batalhão do Imperador, que tinham participado da luta na Argentina pela província cisplatina. Mesmo com a ajuda governamental, os irlandeses não mostraram interesse pelas atividades agrícolas. Por volta de 1830, a colônia estava praticamente desativada. Só permaneciam ali 12 irlandeses.

Um dos mais antigos povoados do Brasil, Taperoá, assinala, além da presença indígena ? os senhores primitivos da terra ?, a de colonizadores portugueses e italianos, e a dos negros africanos. Todos tiveram forte influência na identidade cultural do povo da região.

As origens do município de Nilo Peçanha remontam à criação da vila de Santo Antônio do Boipeba, no século XVI, quando sesmarias foram doadas aos jesuítas que, em sua atividade missionária de expansão da fé católica e educação do gentio, ali fundaram residências, colégios e aldeias.

Durante o século XVII, a aldeia de Boipeba, situada na ilha conhecida pelos tupiniquins como mboi-peba (”cobra chata”, possivelmente uma referência à tartaruga marinha), teve um rápido crescimento devido à fuga de colonos do continente, em face dos constantes ataques dos aimorés. Esses índios hostis flechavam os colonos que se aventuravam a penetrar nas matas, destruíam e roubavam suas roças, e incendiavam suas casas, engenhos e fazendas, não dando trégua ao branco invasor.

A migração dos colonos para os povoados insulares foi de tal modo intensa que, em 1610, Boipeba já seria elevada à condição de vila. É possível que tenham existido engenhos de açúcar nas ilhas, embora a produção agrícola estivesse voltada em maior escala para o cultivo da mandioca e, secundariamente, para a madeira, café, arroz, piaçava (velha conhecida dos índios), dendê, coco e canela. Não deixa de ser curioso que, em 1673, o Governador da Bahia proibiu o plantio de canaviais ou a construção de engenhos nas ilhas, de modo a não prejudicar o abastecimento de farinha para a cidade do Salvador.

Subjugados os aimorés, muitos colonos voltaram ao continente. Em 1811, Boipeba perdeu a sua condição de vila para o povoado de Jequié, em terra firme, que recebeu o nome de Vila de Nova Boipeba, hoje cidade de Nilo Peçanha, numa homenagem ao político brasileiro que participou intensamente das campanhas abolicionistas e republicanas.

Em Nilo Peçanha, permanecem remanescentes de comunidades de antigos quilombos formados por escravos fugidos – Boitaraca e Jatimane – cujas populações, ainda hoje, são essencialmente negras. Relembrando os ancestrais africanos, existe atualmente no município uma manifestação folclórica denominada zambiapunga, na qual, mascarados percutindo enxadas, acompanhados por assopros de búzios e som de tambores, recordam os mesmos escravos que utilizavam essa prática para pedir a proteção de Deus para as colheitas.

Segundo o professor Waldir Freitas Oliveira, as vilas de Cairu e Nova Boipeba já conviviam desde o início do século XXIII com a fuga constante de escravos, com a conseqüente formação de quilombos. Este fato, parece justificar a existência das comunidades predominantemente negras – antigos quilombos – na região.

Até o século XIX todo o processo de comunicação era realizado por mar e alguns cursos d’água. Por essas vias cada aglomeração estabelecia contatos diretos com Salvador e, de forma precária entre si, criando assim o isolamento dessas cidades, verdadeiras ilhas do ponto de vista econômico e cultural. Por essa razão, a partir da segunda metade do século XIX, as cidades portuárias de Valença e Camamu tornaram-se as mais importantes da região. Atualmente com a implantação de infra-estrutura viária, terminais hidroviários e aeroporto, a Costa do Dendê se transformou num Complexo Turístico Integrado.

Além da diversidade de atrativos turísticos, a região conserva importantes manifestações culturais como bumba-meu-boi (Ituberá e Igrapiuna), terno de reis (Igrapiúna), terno da rosa (Ituberá), esmola do São Benedito, também conhecido como lindo amor (Igrapiúna) e Zambiapunga (Nilo Peçanha).

 
 
     
   
 
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